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domingo, março 23, 2014

ONG alerta para explosão da exploração sexual em sedes de Copa



No dia 12 de junho de 2014, os olhos de milhões de pessoas pelo mundo estarão voltados para a abertura da Copa do Mundo no Brasil, no estádio do Itaquerão, na Zona Leste de São Paulo. Durante um mês, as principais cidades do país viverão uma efervescente e atípica rotina, movimentada pela presença de até um milhão de turistas estrangeiros e do deslocamento de três milhões de brasileiros para acompanhar os jogos do mundial de futebol. Enquanto a administração pública corre contra o relógio para tentar reverter a própria incapacidade de entregar as obras de infraestrutura a tempo, são outros números que despertam a atenção da ONG sueca ChildHood, especializada em proteção à infância.
A instituição elaborou um estudo sobre o aumento de casos de exploração sexual de mulheres e crianças em sedes de grandes eventos esportivos nos últimos anos. O documento foi entregue à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República em fevereiro. Segundo a ONG, na Copa da África do Sul, em 2010, foram registrados 40.000 casos de exploração infantil (aumento de 63%) e 73.000 ocorrências de abusos contra mulheres (83% a mais) nos dois meses entre a chegada das delegações, os jogos e o término do evento. Quatro anos antes, no Mundial da desenvolvida Alemanha, foram contabilizados 20.000 casos contra crianças (aumento de 28%) e 51.000 contra mulheres (49% a mais). Nas Olimpíadas da Grécia, em 2012, foram 33.000 casos contra crianças (87% a mais) e 80.000 casos contra mulheres (78% de acréscimo). Se tomados a dimensão territorial e os fatores socioeconômicos, tudo indica que o retrato não deverá ser diferente no Brasil. 
Dados da Secretaria de Direitos Humanos mostram que, no ano passado, foram registrados 33.000 casos de exploração sexual de crianças e adolescentes por meio do disque-denúncia. A cidade de Fortaleza, que ostenta a vergonhosa reputação de capital brasileira do turismo sexual, contabilizou 1.246 em 2013. O perfil das vítimas: meninas com idade entre 8 e 14 anos. Em junho, a cidade abrigará um dos jogos da seleção brasileira, contra o México, na primeira fase da Copa. A expectativa do Ministério do Turismo é que 60.000 turistas desembarquem na capital cearense.

A violência sexual nas sedes da Copa

Casos registrados em 2013 em Estados que vão abrigar partidas do mundial de futebol em junho e receberão intenso fluxo de turistas
São Paulo6.391
Rio de Janeiro5.998
Bahia4.303
Minas Gerais3.563
Fonte: Secretaria de Direitos Humanos
O alerta pela proteção de crianças e adolescentes na Copa também foi feito pela Organização das Nações Unidas (ONU). "São grandes os riscos de meninas e meninos acabarem seduzidos, manipulados por dinheiro ou promessas risonhas. Ter crianças na rua, fora da escola e desocupadas quando o país vai ser visitado por milhões de pessoas, entre as quais pessoas que podem se aproveitar da situação, é um risco”, afirmou a portuguesa Marta Santos Pais, responsável pela área de violência contra crianças da ONU, durante o último Fórum Internacional de Direitos Humanos, realizado no Brasil.
Sem aulas – Em junho e julho, crianças e adolescentes terão as aulas suspensas por recomendação da Fifa. A medida foi determinada pelo Ministério da Educação (MEC) para tentar reduzir o trânsito nas ruas. O MEC autorizou a mudança no calendário escolar e deixou a critério dos governos locais a decisão de manter ou não as escolas abertas durante o mês de julho.
“Esse fator é um dos mais preocupantes, porque a escola é um espaço de proteção da criança. Se ela fechar, essa criança ficará mais exposta durante o evento”, diz Ana Maria Drummond, diretora da ChildHood. “Grandes eventos esportivos agravam a vulnerabilidade: as crianças não estarão na escola e ninguém cuidará delas. Além disso, tem o álcool, as drogas e os 'amigos' que dizendo que o sexo com um estrangeiro pode transformar suas vidas."
O perigo para as crianças não se restringe ao turismo: a ONG descobriu casos de exploração sexual pelos operários que passam quase um ano nos canteiros de obras da Copa e da Olímpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
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Lei e impunidade
 - Em fevereiro, o Senado aprovou um projeto de lei que torna hediondo o crime de exploração sexual de crianças e adolescentes. A proposta seguiu para apreciação da Câmara dos Deputados. Se os deputados chancelarem o projeto, os condenados por esse tipo de crime não terão direito a indulto, não poderão pagar fiança e a pena terá de ser cumprida em regime fechado, com progressão mais lenta.
Pelo Código Penal, a pena para crimes de exploração sexual estipula prisão de quatro a dez anos e multa. Atualmente, o estupro de vulnerável já é considerado crime hediondo. Isso significa que quem tem relações sexuais ou comete ato libidinoso contra menores de 14 anos é punido com pena de oito a quinze anos de prisão.
A punição dos envolvidos em casos de exploração de menores, entretanto, é rara, segundo Karina Figueiredo, secretária-executiva do Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos do governo federal. Ela afirma que a maior parte dos casos denunciados levam três anos para serem julgados. “As Varas da Infância no Brasil não julgam o abusador. O caso segue para uma Vara comum e cai nas mãos de juízes que lidam com toda a sorte de crimes."
Karina diz ainda que muitos juízes também abrandam as punições por preconceito. “Quando é um caso de estupro de menor, todos ficam imediatamente comovidos, mas quando é uma menina se prostituindo na rua, ela é vista como safada. Alguns juízes e promotores têm um pensamento completamente machista perante essa criança. Dizem que a culpa não é do adulto que abusa, mas da menina, que não está na escola porque não quer. Se falarmos de meninos travestis, então, a punição é praticamente inexistente”, afirma.

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Combate – O estudo aponta que medidas de repressão contra o uso de hotéis pelos turistas acompanhados por menores de idade forçam os exploradores a usar os motéis. Taxistas, donos de motéis e até a polícia "pertencem a uma máfia que fornece crianças para sexo com estrangeiros”, diz o relatório. 
A Secretaria de Direitos Humanos diz que vai investir 47 milhões de reais em ações de proteção à criança – 5 milhões de reais a mais do que no ano passado. O governo afirma ainda que implantará comitês de atendimento especial nas cidades-sede. Outra ação é o lançamento de um aplicativo para celular que localiza equipamentos públicos de proteção à criança, como conselhos tutelares, com base em dados de GPS.
O Ministério do Turismo afirma que realiza uma campanha especial para a Copa com cartazes, folhetos e guias em três idiomas espalhados em aeroportos do país. No mês passado, a presidente Dilma Rousseff escreveu em sua conta no Twitter que o Brasil "está feliz em receber turistas que chegarão para a Copa, mas também está pronto para combater o turismo sexual".
Apesar das palavras da presidente, a principal ferramenta de combate ao turismo sexual é falha. O site de VEJA testou o serviço do disque-denúncia na última semana. Na quarta-feira, às 15h, a mensagem de que “no momento todos os nossos atendentes estão ocupados" se repetiu 33 vezes em dez minutos. Duas horas depois, o mesmo aviso foi ouvido nove vezes. Além da dificuldade em encontrar um atendente na linha, a burocracia também dificulta a denúncia: como o sistema é nacional, é exigido, por exemplo, o CEP exato do local onde o abuso foi flagrado. Ao final, quem consegue registrar seu caso pelo telefone ainda corre o risco de ficar somente com um número de protocolo – é o próprio denunciante quem tem que correr atrás para saber se a denúncia foi mesmo apurada.

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